Entrevista: Organizadora de festivais acredita em boom do cinema com a Primavera Árabe

Segunda-feira, 02 de julho de 2012 - 20h08

Nathália Watkins

A escritora e curadora libanesa Rasha Salti está no Brasil para divulgar a 7ª Mostra Mundo Árabe de Cinema. Ela também é ex-diretora sênior da ArteEast e programadora do Festival de Toronto. Em São Paulo, o festival apresenta 32 produções que retratam a vida política, social e cultural dos países que compõem o cenário da região árabe. Em entrevista ao BandNews TV, Salti contextualiza o cinema árabe desde a década de 1960 até hoje - período retratado pelo festival. Além disso, conta sobre a produção independente nos países árabes e a influência da Primavera Árabe para a sétima arte.


Como foi o seu trabalho neste projeto?
- A mostra original "Mapeando a subjetividade: cinema experimental árabe dos anos 60 aos dias atuais" é um programa que foi realizado em três partes. A partes I e II ocorreram no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), em novembro de 2010 e outubro de 2011. A terceira acontecerá em novembro deste ano. Para o Brasil, foi feita uma seleção da parte I e da parte II. O projeto é uma retrospectiva do cinema árabe que não faz parte do mainstream, filmes que não foram produzidos para o grande público. As obras são concebidas por artistas que fazem experimentos de formas e estruturas, que trataram de temas tabus ou politicamente complicados. Há longas, curtas e documentários que cruzam gerações e países.

Em 2005, apenas 5 filmes participaram do festival. Neste ano, são 32. O que mudou?
- O interesse do público brasileiro pela cultura árabe tem a ver com o a curiosidade e engajamento do país com o mundo. Isso é um sinal vital da sociedade, que não deve se interessar apenas por si própria. A França produz quase 600 filmes por ano. Trezentos deles não são franceses. É assim que as nações estabelecem seu poder. Elas se interesam pelo mundo.

Que relação pode ser estabelecida entre a Primavera Árabe e o cinema?
- A relação entre a Primavera Árabe e o cinema é difícil de ser desconstruída. As revoluções aumentaram o interesse pelo mundo árabe, sim. As pessas começaram a ver notícias do Egito, Bahrein, Tunísia. A Primavera Árabe fez também com que as pessoas sonhassem, - algumas, pois outras estão com medo. Mas, em geral, a Primavera Árabe trouxe esperança de volta. Cinema tem tudo a ver com sonhos, imaginação. E por isso a ligação é óbvia. Há filmes produzidos para contar a história das revoluções. Tem pessoas filmando o que acontece agora. Mas nem tudo que está sendo feito é cinema. Podem ser documentos audiovisuais. Alguns tiveram tempo de digerir e pensar em termos cinematográficos. E temos que levar em conta que o processo não acabou, não sabemos quanto tempo os movimentos precisarão para mudar as estruturas dos países. Ainda precisamos de tempo. Cinema é feito de tempo. Esperamos, com o tempo, ter mais filmes, e pessoas que se interessam pelo mundo árabe a ponto de comprar um ingresso e ir ao cinema, porque isso também não é fácil.

E para os produtores e diretores, o que mudou?
- Mais importante do que as mudanças no regime de censuras é o fim da auto-censura. E isso é o mais difícil de combater. Eu acho que muitas pessoas se sentem mais livres. Na Tunísia, o partido Nada que venceu as eleições é um partido político islamista. E eles estão tentando fazer novos padrões de censura. O importante agora não é proteger Ben Ali (presidente deposto), e sim o que eles acham que deve ser defendido, como religião - o que eles acham que faz parte do código moral.

E no Egito?
- A Era Mubarak foi uma época de suspensão de liberdade de expressão. Nos últimos anos, ele diminuiu a censura e controle sobre a mídia. Então, outros veículos, críticos ao regime, foram capazes de funcionar. Mas no cinema isso não aconteceu. A censura continuou ativa. Entretanto, no Egito também, o pior foi a auto-censura.  A primavera árabe significa que nós podemos enfrentar nossos demônios cara a cara, sem álibis. Na época do Mubarak, ele usava a desculpa dos islamitas para assustar os coptas, os seculares e os progressistas. E usava os progressistas para assustar os islâmicos. Pelo menos agora estamos lutando no mesmo terreno, usando a mesma linguagem. Não estamos mais com medo de lutar nossas lutas. E esse é o princípio da democracia, que está de volta.

Há um pólo cinematográfico no mundo árabe?
- Sim, o Egito é Hollywood do mundo árabe. O país tem uma indústria cinematopgráfica quase tão antiga quanto o mundo ocidental, apenas dois anos depois de ter aparecido na França. Essa é uma história contemporânea. E filmes egípcios têm sido distribuídos desde então em todo o mundo árabe. Todos entendem o árabe egípcio, mas os egípcios não compreendem nenhum dialeto falado no mundo árabe. E isso também é uma forma de dominação, na produção cinematográfica. É um setor privado de produção, concentrado no consumo comercial. Se são bons filmes ou não, isso já é uma outra história. Mas há uma tradição bonita de produção de filmes que viajam o mundo, recebem prêmios e entraram para a história do cinema mundial.

Então os produtores e diretores árabes vão ao Egito para fazer carreira?
- No começo, quando nenhum outro país árabe possuía induústria cnematográfica, produtores, atores e diretores iam para o Egito fazer carreira. E uma das coisas mais impressionantes é a quantidade de mulheres que faziam parte dessa indústria e que construíram esse mercado. Eram libanesas, sírias e até palestinas, que foram para o Egito para participar da criação da indústria cinematográfica árabe. Com o tempo, o cinema Egípcio foi ficando cada vez mais comercial. Então as pessoas que estavam interessadas neste tipo de carreira, continuaram indo para lá. Mas hoje a maioria dos países árabes tem sua própria indústria. Não tão grande e espetacular como a egípcia. Em alguns países, o ministério da cultura faz questão de ter uma indústria cinematográfica. Em outros, o setor é completamente dependente de produção independente. É diferente em cada país.

Nos próximos anos, teremos oportunidade de assistir filmes de países que não têm essa tradição de cinema, como a Líbia?
- Sim, com certeza. O (ditador deposto) Muammar Kadafi matou todas as tentativas de se fazer cinema naquele país. Mas já há jovens líbios carregando câmeras, escrevendo roteiros.. Também no Iêmen, Bahrein. Na Mauritânia, por exemplo, que tem uma cinemateca linda, alguns diretores. Acho que dentro de algum tempo e com um pouco de investimento, veremos mais filmes de lá também.

Qual é o papel da mulher durante esses anos retratados pelo Festival, dos anos 1960 até hoje?
- O papel da mulher mudou, sim, neste período. Estou falando do cinema artístico, alternativo. Nesse setor, durante os anos 60 e 70, as mulheres que trabalhavam com cinema eram editoras, roteiristas, assistentes de produção. Muito poucas tinham funções proeminentes como diretoras ou produtoras. Em países onde a indústria estava engatinhando e ela suprimida, por problemas políticos - como a guerra civil do Líbano, que acabou com o cinema naquele país - enfim, quando as estruturas não existiam mais, as mulheres tomaram as rédeas e se tornaram produtoras de cinema. Em países como Líbano e Palestina, a proporção de mulheres no cinema é quase igual à dos homens, com participação de 50%, se não mais do que isso. Em países como a Síria, onde a produção é controlada pelo Estado, há muito poucas mulheres no cinema. No Egito, no setor privado, há algumas mulheres, mas estão em número menor do que os homens.

Isso é interessante, porque o Egito é a primeira e maior indústria árabe...
Sim, podemos dizer que o Egito foi ficando mais conservador desde os anos 60 até a Primavera Árabe, em liberdade de expressão, direitos civis... O país se tornou mais socialmente conservador. Havia cenas de nudez e beijos nos filmes egípcios dos anos 60 e 70. Nos anos 90, isso foi proibido. Isso tem a ver com os grandes investimentos da Arábia Saudita no cinema egípcio. Infelizmente, porque eles não amam cinema, ou cultura ou.. Beijos (rs). E tem a ver também com tirania, despotismo. Impedir que as pessoas imaginem, sonhem. Isso não tem a ver com a subida da Irmandade Muçulmana. Mas sim com a falta de liberdade, que vem principalmente da Arábia Saudita.

O interesse na arte árabe em geral, aumentou depois da Primavera Árabe?
- Infelizmente, o interesse aumentou depois dos atentados de 11 de setembro, nos Estados Unidos. Por um lado, éramos tratados como perigosos, explosivos terroristas, e por outro lado, como artistas contemporâneos muito sexis. A Primavera Árabe é um motivo positivo para despertar o interesse das pessoas pelo mundo árabe. Os eventos aconteceram de forma tão surpreendente, inesperada, que as pessoas, os acadêmicos, se perguntavam "como é que isso não foi previsto?". E as pessoas foram buscar essas respostas no cinema. Lám isso foi percebido. É interessante ver flmes de diretores críticos que puderam observar esse processo.


Confira a entrevista na íntegra.

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