Entrevista: Carlos Costa Magalhães comenta as práticas para manter o coração saudável

Sábado, 14 de julho de 2012 - 14h45

 

 “O futuro é preocupante. Entre os emergentes, o Brasil será, possivelmente, o campeão de mortalidade cardiovascular”


                         

 

O alerta é do presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo. Sedentarismo, má alimentação e a ansiedade provocados pela correria são os grandes vilões. Mas o que fazer para enfrentá-los ?

 

Por Wagner Belmonte

 

Para o brasileiro que trabalha mais de oito horas por dia, está cada vez mais difícil alcançar uma qualidade de vida desejável. A preocupação diária com a vida profissional o afasta de uma rotina saudável e tem se tornado um fator de risco à saúde. Além do aumento na jornada de trabalho, do estresse, da má alimentação, do tabagismo, do consumo excessivo de bebidas alcoólicas e do sedentarismo, as incidências de sobrepeso e obesidade, colesterol alto, hipertensão arterial e diabetes têm se acentuado. Consequentemente, as doenças do coração também. O número da mortes decorrentes de problemas cardíacos já é assustador.

 

A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) diz que mais de 320 mil brasileiros morrem, todo ano, vítimas de doenças cardiovasculares. A estatística é confirmada pelo presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), Carlos Costa Magalhães. Segundo ele,  “o futuro do País em 2040 é preocupante. Entre os emergentes, o Brasil será, possivelmente, o campeão de mortalidade cardiovascular”, prevê. A profecia de Magalhães encontra respaldo na Organização Mundial da Saúde (OMS).

 

Para melhorar a posição, garantir qualidade de vida e longevidade, o presidente afirma que é preciso dedicar pelo menos 40 minutos por dia a uma atividade física, quatro vezes por semana. Ele explica que, com a rotina exaustiva da “vida moderna”, com níveis de estresse aumentados pela pressão diária, poucos conseguem mudar os hábitos.

 

ADOLESCENTES E MULHERES EM FOCO  O médico também ressalta a importância de uma ação mais específica para adolescentes, cada vez mais atingidos pelo sobrepeso e a obesidade. “Se essa população não for abordada de uma maneira adequada, e nós estamos falando de 8 a 12 anos, com 20 ou 25 anos teremos adultos jovens infartados. A chance desse adulto jovem sobreviver até os 40 é muito pequena”, diz.

 

Magalhães também faz um alerta à falta de conscientização e prevenção de doenças cardiovasculares nas mulheres. Para a entidade, elas são mais suscetíveis que os homens. Nelas, o infarto é quase assintomático e a probabilidade de morte chega a ser até 50% maior. De forma lenta e gradual, elas passaram a competir no mercado de trabalho, ganharam uma dupla jornada, fumam mais, estão mais sedentárias, estressadas, obesas, hipertensas e diabéticas. Por causa destes fatores de risco, ele conta que, hoje, a mulher “morre quatro vezes mais de causas cardiológicas do que de câncer de mama e ginecológico”. Na avaliação de Magalhães, as campanhas de prevenção “são mais eficazes”. O cargiologista explica que a chamada medicina preventiva tem um custo, mas ele “é infinitamente menor porque, se a pessoa não se prevenir, ela vai tomar remédios para o resto da vida”, alerta.

 

SOCESP A Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo tem mais de seis mil sócios e representa cerca de 50% da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Em março passado, ela promoveu o VIII Simpósio, que abordou o tema “Fibrilação Atrial” – um tipo de arritmia cardíaca cada vez mais prevalente no Brasil. No evento, foram levantados aspectos relacionados a esta patologia e também às novas opções terapêuticas, como os anticoagulantes, que estão entrando no mercado para evitar possíveis complicações decorrentes da Fibrilação Atrial.

 

PERFIL Carlos Costa Magalhães é presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp). Formado pela Escola Médica do Rio de Janeiro – Universidade Gama Filho (UGF), ele possui doutorado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Atua em São José dos Campos, onde, em 1984, com outros 23 médicos, fundou a Regional Vale do Paraíba. Foi o primeiro presidente da Socesp na região e comandou o VII Congresso da entidade em 1986, em Campos do Jordão e, em 1992, presidiu o XIII Congresso. Carlos Magalhães faz parte do American College of Cardiology e da European Society of Atherosclerose.

 

 

BANDNEWS - O senhor assumiu a presidência da Socesp em janeiro e anunciou uma série de pesquisas e programas. Quais as prioridades?

 

Carlos Costa Magalhães - Existem dois projetos que já tinham sido iniciados na gestões anteriores, dos doutores Ari Timerman e Luiz Antonio Machado César, o Mutirão Cardiovascular e o Projeto Infarto. O Projeto Infarto tinha como foco treinar médicos não cardiologistas, que atendem nas emergências dos hospitais. O projeto piloto foi realizado na cidade de São Paulo. Antes dele, a incidência de infarto e mortalidade era muito elevada. Com o treinamento dessa população médica não-especialista, houve uma redução de 28% na incidência de infartos. Agora vamos estender este projeto para o interior do Estado de São Paulo. O trabalho deve continuar na capital, mas também vai chegar às 18 regionais da Socesp. Com isso, vamos tentar avaliar ou contribuir para este treinamento ser mais difundido e, consequentemente, se tornar mais eficaz. A identificação precoce de um infarto evita complicações e reduz a mortalidade.  

 

 

BANDNEWS – Segundo um levantamento do Conselho Federal de Medicina (CFM), as áreas mais procuradas na medicina são Pediatria, Ginecologia e Obstetrícia, Anestesiologia, Cirurgia Geral e Clínica Médica. Na sua avaliação, como está o interesse pela área de Cardiologia?

 

Carlos Costa Magalhães - A Cardiologia tem tido um impacto muito grande porque a terapêutica cardiovascular dos últimos 10 ou 15 anos se modificou muito com a introdução de novos medicamentos para o controle da hipertensão arterial, que tem uma prevalência muito grande no País. Além disso, tem também a introdução das estatinas, medicamentos que reduzem o risco cardiovascular. A Cardiologia tem tido um desenvolvimento muito rápido. Numa sociedade estadual com mais de 6 mil sócios, se você comparar a outras sociedades, talvez perca para a Ginecologia e Obstetrícia ou até para outras áreas como a Endocrinologia, que tem muito a ver com a Cardiologia, porque o diabético, hoje, tem um risco cardiovascular bastante amplificado. A introdução de uma terapêutica cardiovascular adequada modifica o risco e reduz a mortalidade. A principal incidência de mortalidade mundial é de origem cardiovascular.

 

 

BANDNEWS - Nos últimos 15 anos, quais foram as grandes transformações na área de Cardiologia e quais os principais avanços?

 

Carlos Costa Magalhães - A mais importante, talvez, seja a introdução da estatina. É uma medicação que controla o colesterol, principalmente aquele colesterol de origem genética. Para 70% da população que tem colesterol elevado, a causa é de origem genética, e aos 30% restantes, de origem alimentar. A indicação de estatina está ligada justamente àquele paciente que tem um componente familiar e que, se não tratado de uma maneira adequada, a incidência de infarto ou derrame é bastante possível. A introdução da estatina reduziu em torno de 25% a 30% a mortalidade  cardiovascular. Isso representa uma descoberta terapêutica extremamente significativa. Ela tem sido aplicada até como fator de prevenção primária – a introdução de uma medicação em quem não teve um problema, mas reúne os fatores de risco, tem uma história familiar. Isso, certamente, vai contribuir, fará diferença. O futuro do País, em 2040, é preocupante. Entre os países emergentes, o Brasil será, possivelmente, o campeão de mortalidade cardiovascular.

 

 

BANDNEWS - Por quê?

 

Carlos Costa Magalhães - Porque a população está crescendo, envelhecendo; a obesidade e hipertensão estão cada vez mais prevalentes e há uma perspectiva de que o Brasil, entre os emergentes, vai ser o campeão de mortalidade cardiovascular. Essa previsão já foi identificada. Estudos internacionais mostraram que o País tem essa tendência e caminha nesta direção. Precisamos fazer políticas de saúde e campanhas de esclarecimento. A prevenção cardiovascular precisa ser melhor trabalhada, porque países de primeiro mundo, como os Estados Unidos, têm modificado a mortalidade cardiovascular nos últimos 15 ou 20 anos, sendo muito mais eficazes do que estamos sendo.

 

 

BANDNEWS – A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) estimou, num levantamento que se tornou público em agosto do ano passado, que 320 mil brasileiros morrem por ano com doenças cardiovasculares. Qual a relevância desses dados e como o senhor avalia este número?

 

Carlos Costa Magalhães - A estatística é baseada em dados do Ministério da Saúde, e nós usamos esses números no dia a dia para tentar reduzi-los no futuro. O número é este mesmo: 320 mil. Ele mostra os desafios que temos pela frente.

 

 

BANDNEWS – Qual é o grande vilão da saúde cardiovascular?

 

Carlos Costa Magalhães - Eu colocaria a incidência de sobrepeso e obesidade. Os adolescentes já estão sendo atingidos. Nós temos, aqui na Socesp, um estudo piloto feito na região da Mogiana, com 35 mil crianças, que identificou sobrepeso e obesidade em 32% das crianças em fase escolar, entre 8 e 12 anos. Esse é um dos projetos que pretendo implementar nas outras regionais da Socesp, fazer um retrato do estado de São Paulo. O adolescente é uma preocupação não só do Brasil. A primeira dama dos Estados Unidos, Michelle Obama, está na mídia fazendo campanha contra obesidade. É o foco, porque hoje, no Brasil, o adulto com sobrepeso e obesidade já é uma realidade. Nos Estados Unidos, mais de 50% da população tem sobrepeso e obesidade. No Brasil, estamos acima de 35%, quase 40%. Se essa população [adolescente] não for abordada de uma maneira adequada, e nós estamos falando de 8 a 12 anos, com 20 ou 25 teremos adultos jovens infartados. A chance desse adulto jovem sobreviver até os 40 é muito pequena. Há alguns anos, saiu uma reportagem na revista Newsweek dizendo que uma criança obesa iria morrer antes dos pais. Ou seja: o filho não vai enterrar o pai e a mãe, mas os pais que poderão enterrar seus filhos. Criança não faz mais atividade física, não joga mais bola na rua, não anda de bicicleta; essa é uma das causas da obesidade. Então, é uma geração que tem um futuro muito complicado.

 

 

BANDNEWS – A cultura norte-americana do fast food, que parece ter sido importada pelos brasileiros, amplia estes riscos?

 

Carlos Costa Magalhães - É por isso que, talvez, nós sejamos o principal candidato a ser o campeão de mortalidade cardiovascular em 2040, entre os países emergentes. Se você considerar que há anos existe fome e desnutrição, a principal causa de obesidade vem de hábitos de vida e alimentação indaqueda para quem tinha uma situação desfavorável, de desnutrição. Uma dieta extremamente calórica, consequentemente, vai transformar o desnutrido no obeso. As duas patologias, as duas pontas, são altamente desfavoráveis. A criança desnutrida é uma criança com chance futura de desenvolvimento intelectual baixo. Agora, por outro lado, com a inadequada orientação nutricional durante os 10 ou 15 anos em que isso se modificou, com a obesidade, eles se tornam diabéticos e hipertensos jovens, já com incidência de doenças cardiovasculares. Este meio termo precisa ser encontrado. Políticas de saúde em relação à merenda escolar, ao que está errado na merenda escolar. Deve-se separar o interesse econômico da política pública de saúde adequada, num sentido de uma orientação nutricional.  Qualquer pessoa sabe que colesterol faz mal, pressão alta e diabetes também faz. Hoje, tem gente de 20 anos indo ao consultório do cardiologista querendo fazer check-up. Essa é a medicina preventiva. Há 40 anos, isso não ocorria. Estou formado há 37 anos e, há 30, não via uma pessoa de 18 anos indo ao consultório querendo saber se está tudo bem, se o colesterol está bom. Isso é muito positivo; é uma prevenção cardiovascular. Por outro lado, os cuidados e a abundância de informação não estão surtindo efeitos, no sentido de modificar os fatores de risco. Os jovens têm ficado doentes mais cedo, mais precoce, apesar da longevidade ter aumentado porque os tratamentos se tornaram mais eficazes.

 

 

BANDNEWS - O que o senhor diria a uma pessoa que trabalha 12 ou 15 horas por dia e não tem tempo para ir à academia?

 

Carlos Costa Magalhães - O executivo está muito mais preocupado com o crescimento profissional do que com a qualidade de vida. Se as horas de trabalho chegam a 12 horas, quem é que tem condição para fazer atividades físicas? O ser humano precisaria ter 40 minutos para uma atividade física pelo menos quatro vezes por semana, para que não se tornasse um sedentário. Esse sedentarismo implica aumento de peso, que vai levar à hipertensão, à incidência de sindromes metabólicas. Este é o cenário não só do executivo, mas da dona de casa, que tem dupla tarefa, trabalha fora e em casa. A mulher faz menos exercício que o homem. Hoje, a incidência de acidente cardiovascular também aumenta. Ela fuma mais, está mais estressada, compete no mercado de trabalho, tem a dupla jornada, está mais sedentária, obesa, hipertensa e mais diabética.

 


BANDNEWS - Como anda a prevenção de doenças cardiovasculares na mulher?

 

Carlos Costa Magalhães – As campanhas de prevenção de câncer ginecológico e de mama na mulher são altamente eficazes. As de prevenção de doença cardiovascular, não. A mulher morre quatro vezes mais de causas cardiológicas do que de câncer de mama e ginecológico. No entanto, a prevenção destes cânceres é muito mais eficaz. Se você considerar que uma artista vai para a televisão e diz que tinha um nódulo no seio, o tirou e não ficou com nenhuma sequela, porque hoje a cirurgia reconstrutora resolve esta questão, o impacto na mulher é altamente eficaz. No entanto, o impacto da prevenção cardiovascular tem um apelo muito menor. Consequentemente, a mulher morre muito mais de causa cardiovascular do que de causa ginecológica.

 


BANDNEWS - Como um excutivo pode monitorar a saúde cardiovascular diante do cenário de correria e estresse da vida moderna?

Carlos Costa Magalhães - Ser mais consciente. Ele precisa ter consciência da importância de reservar 40 minutos para uma atividade de lazer, porque o exercício físico passa a ser lazer, promove uma qualidade de vida muito melhor. Ao fazer uma atividade física, ele libera endorfina, que dá uma sensação de bem estar, a pessoa fica mais alegre, melhora o humor e dorme bem. Em duas ou três semanas, fazendo exercício de duas a quatro vezes por semana, você começa a liberar  endorfina e vai se sentir melhor. Prevenção é a questão principal. Hoje a medicina preventiva tem um custo, mas ele é infinitamente menor porque, se a pessoa não se prevenir, ela vai tomar remédios para o resto da vida.

 

BANDNEWS - Um estudo realizado recentemente pela Universidade de Calgary, no Canadá, afirma que, ao ingerir uma quantidade moderada de bebida alcoólica, diminuem-se as chances do surgimento de problemas cardíacos. Qual seria a medida certa?

 

Carlos Costa Magalhães - Estudos científicos mostram que num comparativo entre quem bebe pouco e quem não bebe, o primeiro tem menos chance de sofrer um evento cardiovascular. Este é um estudo clássico, de mais de 20 anos, que mostra que o uso do álcool em baixa dose é um fator que contribui com vasodilatação periférica, ajuda a diminuir a incidência de hipertensão arterial. Mas estamos falando em beber pouco. Esta moderação depende da interpretação de cada pessoa. Uma dose de bebida destilada, até 600 ml de cerveja e um cálice de vinho por dia. Essa é uma quantidade que não teria influência negativa do ponto de vista cardiovascular. Para quem é diabético, não tem sentido tomar uma taça de vinho por dia porque o vinho tem açúcar. Na famosa frase “o vinho faz bem para o coração”, não é especificamente para o coração. No vinho tinto, há uma substância chamada “flavonoide”, que vem da casca da uva do vinho. Ela ajuda a aumentar o HDL, que é o colesterol bom. Isso não é uma orientação médica; nunca vai ser. São estudos observacionais que mostram que o benefício é verdadeiro. Agora, para quem não é diabético, não tem doenças hepáticas, e não tem riscos de alcoolismo, que gosta e não tem contra-indicações, não é um problema. Mas esta orientação de beber todo dia não é médica. Ela é muito específica para uma classe de pessoas que não tenha risco de que isso se torne um hábito e seja prejudicial.

 

 

BANDNEWS - A carne vermelha e a gema do ovo deixaram de ser vilãs?

Carlos Costa Magalhães - O ovo já não é tão vilão, a não ser que você coma todo dia. A quantidade de colesterol na gema do ovo é maior. Mas, se você comer ovo duas vezes por semana, isso não será um problema. A carne vermelha tem um teor maior de colesterol, mas, se o hábito não for frequente, não é um problema. Para tudo isso, é preciso bom senso. Se tiver, não terá tantas restrições. As pessoas acham que não podem comer nada, não podem beber e se perguntam o que fazer. Elas podem fazer isso, contanto que não tenham hábitos inadequados ou em excesso.

 

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